RSS

Do Jornal O Fluminense – Cidades – Por outro lado – Honrar o outro

28 mar

logo_0oseas-lopes

 Honrar o outro

( Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF))

Observando as recentes manifestações de vários segmento da sociedade, diante do momento de desequilíbrio institucional por que passa o país, “as crises surgem quando a estrutura de um sistema social permitem menores possibilidades para resolver o problema do que são necessárias para continuar a existência do sistema” – Habermas –, vejo com bom ânimo que trabalhadores valorizem as instituições que pertencem, destarte, é salutar que juízes afirmem que honram suas togas, assim como os polícias seus uniformes, médicos seus aventais, agricultores suas enxadas e por aí vai. Honrar seu trabalho e profissão é próprio da identidade que cada um constrói diariamente.

Cada qual no seu ofício, quando trabalhamos, seja despachando um processo ou cavando uma sementeira, usamos nossa força física e intelectual para modificar o mundo, cada broto plantado ou assinatura firmada modifica de alguma forma a realidade. Ocorre que, transformando o mundo, por consequência, também nos transformamos, assim, modificando a realidade nos reconhecemos naquilo que fizemos, porque tem sentido e significado para nós, nos vemos naquilo que produzimos.

Sublime o processo, não fossem os riscos nesta afirmação de se ignorar a existência de outras identidades, ou seja, agindo e transformando isoladamente, sem a participação de outros membros da coletividade, o indivíduo pode acabar por entender que sua manifestação é a única importante, de modo que ao honrar a farda, a enxada ou a toga, acabe por desconsiderar as expectativas, desejo e interesses da pluralidade social.

Isolado e afirmado no alto do pedestal que constrói, o indivíduo que não tem no seu trabalho a dinâmica da variedade e divergência de pensamento não molda sua identidade considerando práticas democráticas, discursivas e participativas, desse modo, enquanto age sobre o mundo afirma uma identidade que só vê a si e seus interesses, portanto, pertencente a um mundo vertical, monológico, egoísta e vaidoso, no final das contas quando olha ao redor só aceita aquilo que for seu reflexo, como espelho de Narciso.

Por outro lado, há aqueles que nas mesmas atividades interagem com o mundo numa relação dialógica, de troca entre fazer e receber, de ensinar e aprender, não instrumental ou meramente autoafirmativa, constroem um mundo com seu trabalho, porém, não só com suas expectativas, mas considerando os desejos do outro, são nesses casos que identificamos o policial cidadão, o médico solidário, a atendente atenciosa, o juiz o justo, o professor devotado e por ai vai, para essas pessoas mais importante que se auto dignificar é honrar a coletividade, honrar a vontade comum expressa nas leis, horar os princípios que regem a sociedade, é honrar a liberdade e a democracia.

Oxalá continuemos a honrar nossos trabalhos, sejam mitificados nas togas, nas enxadas, nas canetas, nos martelos ou num pedaço de giz, entretanto, mais importante que as honras individuais manifestadas publicamente é a dignificação de uma sociedade livre, democrática e pautadas no Direito, aliás, identidade moderna produzida ao longo da história com sacrifícios, afirmativa de valores que ultrapassam corporativismos e veleidades pessoais.

Anúncios
 
 

Tags: ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: