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Papa Francisco fala sobre ‘crucifixo comunista’ que recebeu de Evo Morales

14 jul
Papa Francisco fala sobre ‘crucifixo comunista’ que recebeu de Evo Morales

No avião com jornalistas, Papa se compromete a falar também para a classe média

O tradicional encontro do Papa com os jornalistas durante o voo, neste caso o de retorno de Assunção a Roma, durou cerca de uma hora. Muitos foram os questionamentos, desde a situação grega e a economia mundial, a falta de mensagens direcionadas à classe média, até o crucifixo sobre a foice e o martelo presenteado pelo presidente da Bolívia.

A primeira pergunta questionava o porquê do Paraguai ainda não ter um cardeal. O Papa mesmo disse que o país mereceria ter até dois, mas não por questão de méritos, mas porque “é uma Igreja viva, uma Igreja alegre, uma Igreja lutadora e com uma história gloriosa”.

Sobre a visita no Equador, o Santo Padre foi questionado se simpatizava com o projeto político do presidente Correa, visto que a Sua presença e inclusive uma frase do Pontífice poderia ter sido usada politicamente. A frase é: “O povo do Equador se colocou de pé, com dignidade”. Francisco agradeceu pelo povo ter respeitado a Sua visita em meio a problemas políticos do País.

“Equador não é um país de descarte, ou seja, que se refere a todo o povo e a toda a dignidade desse povo, que depois da guerra de fronteiras, se colocou de pé e tomou cada vez mais consciência da sua dignidade e da riqueza da unidade na variedade que tem. Ou seja, que não pode se atribuir a uma situação concreta. Porque a mesma frase – comentaram comigo, eu não a vi – foi instrumentalizada para explicar ambas situações: que o governo colocou de pé o Equador ou que teriam colocado de pé os opositores ao governo. Uma frase se pode instrumentalizar e, nisso, acredito que se precisa ser muito cuidadoso. […] É muito importante no trabalho de vocês a hermenêutica de um texto. Um texto não pode ser interpretado com uma frase. A hermenêutica tem que ser em todo o contexto.”

Movimentos populares

Sobre o encontro na Bolívia com os Movimentos Populares, quando Francisco fez referência ao ‘novo colonialismo’ e à ‘idolatria do dinheiro que submete a economia’, uma pergunta ao Santo Padre foi direcionada à situação atual da Grécia que pode inclusive comprometer a União Europeia.

“Eu tenho uma grande alergia à economia, porque o papai era contador e, quando não terminava o trabalho na fábrica, levava-o para casa. O sábado e o domingo, com aqueles livros, daqueles tempos, com os títulos que se faziam em gótico… e trabalhava, e eu via o papai… e tenho uma alergia. Eu não entendo bem como é a coisa, mas certamente seria simples dizer: a culpa é somente desta parte. Os governantes gregos que levaram adiante essa situação de dívida internacional, têm também uma responsabilidade. Com o novo governo grego se foi em direção a uma revisão um pouco justa. Eu espero, e é a única coisa que posso dizer, porque não sei bem, que encontrem uma estrada para resolver o problema grego e também uma estrada vigilante para não recair em outros países o mesmo problema, e que isso nos ajude a ir adiante, porque aquela estrada do empréstimo e das dívidas no final, não termina nunca.”

Crucifixo

1436444103_616663_1436448075_sumario_normal   Sobre o presente recebido pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, o Santo padre reafirmou se tratar de uma obra de Padre Espinal, “uma arte de protesto, mas que não conhecia e não me ofende”. Mas, afinal, o que teria sentido o Papa ao receber aquela foice e martelo com o Cristo em cima?

“Eu, é curioso, não conhecia isso e nem sabia que Padre Espinal era escultor e também poeta. Eu soube nestes dias. Eu o vi e, para mim, foi uma surpresa. […] Primeiro ponto, então, não sabia; segundo, eu o qualifico como arte de protesto que, em alguns casos, pode ser ofensiva, em alguns casos. Terceiro, neste caso concreto: Padre Espinal foi morto em 1980. Era um tempo em que a Teologia da Libertação tinha muitas linhas, uma dessas era com a análise marxista da realidade, e Padre Espinal pertencia a essa. Isso sim, eu sabia, porque naquele tempo, eu era reitor da Faculdade de Teologia e se falava muito sobre isso, das diversas linhas e quais eram seus representantes. […] Espinal é um entusiasta dessa análise da realidade marxista, mas também da teologia, usando o marxismo. Disso surgiu esta obra. Inclusive as poesias de Espinal são daquele gênero de protesto, mas era a sua vida, era o seu pensamento, era um homem especial, com tanta genialidade humana, e que lutava com boa fé. Fazendo uma hermenêutica do gênero, eu entendo essa obra. Para mim não foi uma ofensa. Mas precisei fazer essa hermenêutica e digo para vocês para que não existam opiniões erradas. Este objeto agora eu levo comigo. Vem comigo.”

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Nova perspectiva

Questionado sobre a falta de mensagens direcionadas para a classe média, já que a maioria dos discursos do Papa são eloquentes para os pobres e também para os ricos e poderosos, o Pontífice respondeu:

“O senhor tem razão, é um erro da parte minha. Devo pensar sobre isso. Farei algum comentário, mas não para me justificar. O Senhor tem razão, devo pensar um pouco. O mundo está polarizado. A classe média está menor. A polarização entre os ricos e os pobres é grande, isso é verdade, e talvez isso me levou a não perceber aquilo. Falo do mundo, alguns países não, vão muito bem; mas, no mundo em geral, a polarização se vê e o número dos pobres é grande. Então, por que falo dos pobres? Mas porque está no coração do Evangelho, e sempre falo do Evangelho sobre a pobreza, ainda que seja sociológica. Depois, sobre a classe média têm algumas palavras que eu disse, mas um pouco ‘em passant’. Mas a gente simples, a gente comum, o operário… aquilo é um grande valor.”

Descontração

Inclusive uma brincadeira foi colocada ao Santo Padre sobre o uso insistente de fotos, como o selfie, nesta era digital e em meio à missa, feitas por jovens, crianças e colegas.

“O que eu penso? É uma outra cultura. Eu me sinto bisavô. Hoje, ao me despedir, um policial, grande, com seus 40 anos, me disse: ‘faço um selfie’. E eu disse: ‘mas você é um adolescente’. Sim, é uma outra cultura, mas eu a respeito.”

E ainda, em gênero de curiosidade, um jornalista pediu qual o segredo de tamanha vivacidade do Papa Francisco – confirmada tanto na viagem à América Latina, como nesses últimos dois anos e meio de pontificado:

“Qual é a sua ‘droga’, gostaria de questionar ele… (risos). È, aquela era a pergunta! Ah… a ‘droga’. Mas, o mate me ajuda. Mas não provei a coca. Isso é claro, não?” (AC)

Sobre ‘crucifixo comunista’ que recebeu de Evo Morales

Papa Francisco desmente rumores espalhados por religiosos e conservadores de que teria se ofendido com o ‘crucifixo comunista’ recebido do presidente da Bolívia, Evo Morales. O pontífice comentou pela primeira vez sobre o incidente polêmico, que foi alvo de críticas durante toda a semana

O papa Francisco negou nesta segunda-feira (13/07) que tenha se sentido ofendido com o crucifixo dado como presente pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, na última quarta (08/07).

“Entendo esta obra e a considero uma expressão de arte de protesto. Não foi uma ofensa para mim e há opiniões erradas se espalhando por aí. Trouxe a obra comigo para o Vaticano”, disse o líder da Igreja Católica dentro do avião que o levou de volta à Itália.

Morales deu ao Papa um crucifixo de madeira com um Cristo sobre uma foice e um martelo, símbolo que remete ao comunismo, durante um encontro oficial em La Paz, como parte da viagem de Francisco pela América do Sul, que incluiu paradas no Equador e no Paraguai.

Alguns religiosos consideraram o presente uma provocação e disseram que o Papa teria se ofendido com este crucifixo. A peça foi desenhada pelo jesuíta Luis Espinal, assassinado em 1980 por paramilitares de direita durante o golpe militar de Luis García Meza, que atualmente está preso por crimes contra a humanidade.

Na Bolívia, Francisco fez um dos discursos mais categóricos de seu pontificado , criticando o capitalismo e exigindo mudanças no modelo econômico mundial.

Confira a seguir trechos da entrevista de Francisco em seu avião:

Stefania Falasca (Avvenire) – No discurso que o senhor fez na Bolívia aos movimentos populares, o senhor falou do novo colonialismo e falou da idolatria do dinheiro que submete a economia, e da imposição dos meios de austeridade que sempre apertam, como o senhor disse, o cinto dos pobres. Agora, há semanas, nós, na Europa, temos esse caso da Grécia e do destino da Grécia que corre o risco de sair da moeda europeia: o que o senhor pensa do que está acontecendo na Grécia e que também diz respeito a toda a Europa?

Acima de tudo, sobre a minha intervenção no congresso dos movimentos populares: é o segundo. O primeiro foi feito no Vaticano, na Aula Velha do Sínodo, havia cerca de 120 pessoas. É algo organizado pelo [Pontifício Conselho] Justiça e Paz. Eu estou perto disso, porque é um fenômeno em todo o mundo, em todo o mundo. Também no Oriente, nas Filipinas, na Índia, na Tailândia. São movimentos que se organizam entre si não só para fazer um protesto, mas também para seguir em frente e poder viver. E são movimentos que têm força, e essas pessoas, que são tantas e tantas, não se sentem representadas pelos sindicatos, porque dizem que os sindicatos agora são uma corporação, não lutam – agora estou simplificando um pouco –, mas a ideia de muitas dessas pessoas é que eles não lutam pelos direitos dos mais pobres.

E a Igreja não pode ser indiferente. A Igreja tem uma Doutrina Social e dialoga com esse movimento, e dialoga bem. Vocês viram o entusiasmo de sentir que a Igreja não está longe de nós, a Igreja tem uma doutrina que nos ajuda a lutar por isso. É um diálogo. Não é que a Igreja faz uma opção pelo caminho anárquico. Não, eles não são anárquicos: eles trabalham, tentam fazer muitos trabalhos, também com os resíduos, com as coisas que sobram. São trabalhadores de verdade. Essa é a primeira coisa, a importância disso.

Depois, sobre a Grécia e o sistema internacional: eu tenho uma grande alergia à economia, porque o papai era contador e, quando não acaba o trabalho na fábrica, ele o trazia para casa, no sábado e no domingo, com aqueles livros, daqueles tempos, em que os títulos eram escritos em gótico… E trabalhava, e eu via o papai… E tenho uma alergia. Eu não entendo bem como é a coisa, mas certamente seria simples dizer: a culpa é apenas desta parte. Os governantes gregos que levaram adiante essa situação de dívida internacional também têm uma responsabilidade.

Com o novo governo grego, chegou-se a uma revisão um pouco justa. Eu espero – é a única coisa que eu posso lhe dizer, porque não sei bem… – que encontrem um caminho para resolver o problema grego e também um caminho de supervisão para que outros países não caim no mesmo problema, e que isso nos ajude a ir em frente, porque esse caminho do empréstimo e das dívidas, no fim, não termina nunca.

Disseram-me que, há um ano, mais ou menos, mas não sei se… esta é uma coisa que eu ouvi… que havia um projeto nas Nações Unidas (se algum de vocês sabe disso, seria bom que explicasse), havia um projeto para o qual um país pode se declarar em falência, que não é o mesmo que o default, mas é um projeto que eu ouvi e que não sei como foi, se era verdade ou não. Digo isso para ilustrar como uma coisa que eu ouvi, mas se uma empresa pode fazer uma declaração de falência, por que um país não pode fazê-la, e assim se vai à ajuda dos outros?

Esses eram os fundamentos desse projeto, mas sobre isso eu não posso dizer mais nada. Depois, quanto às novas colonizações: evidentemente, vão todas sobre os valores. A colonização do consumismo. O hábito do consumismo foi um progresso de colonização. Porque é o hábito: leva você a um hábito que não é o seu e também desequilibra a sua personalidade. O consumismo também desequilibra a economia interna e a justiça social, e também a saúde física e mental, apenas para dar um exemplo.

Anna Matranga (CBS News) – Vossa Santidade, uma das mensagens mais fortes dessa viagem foi que o sistema econômico global muitas vezes impõe a mentalidade do lucro a todo o custo, em detrimento dos pobres. Isso é percebida pelos americanos como uma crítica direta do seu sistema e do seu modo de vida. Como o senhor responde a essa percepção? E qual é a sua avaliação do impacto dos Estados Unidos no mundo?

O que eu disse, essa frase, não é nova. Eu a disse na Evangelii gaudium: “Essa economia mata”. Dessa frase eu me lembro bem, há um contexto. E eu a disse na Laudato si’. A crítica não é uma coisa nova, como se sabe. Ouvi que algumas críticas foram feitas nos Estados Unidos. Eu ouvi isso. Mas eu não as li e não tive o tempo para estudá-las bem, porque cada crítica deve ser recebida e estudada, para, depois, fazer o diálogo. Você vai me perguntar o que eu penso, mas, se eu não dialoguei com aqueles que fazem as críticas, eu não tenho o direito de fazer um pensamento assim, isolado do diálogo. Isso é o que eu tenho a dizer.

O senhor agora vai aos Estados Unidos. Tem uma ideia de como será recebido, tem algum pensamento sobre a nação…

Não, devo começar a estudar agora, porque até hoje eu estudei esses três países belíssimos, que são uma riqueza e uma beleza. Agora, devo começar a estudar Cuba, porque vou para lá dois dias e meio, e depois os Estados Unidos, as três cidades do Leste – porque ao Oeste eu não posso ir –, Washington, Nova York e Filadélfia. Sim, devo começar a estudar essas críticas e, depois, dialogar um pouco.

Aura Vistas Miguel – Santidade, o que sentiu quando viu aquela foice e martelo com Cristo em cima, oferecido pelo presidente Morales? E onde acabou esse objeto?

É curioso, eu não conhecia isso e nem sabia que o padre Espinal era escultor e poeta até. Soube disso nestes dias. Quando o vi, para mim, foi uma surpresa. Segundo, pode-se qualificar como o gênero da arte de protesto.

Por exemplo, em Buenos Aires, há alguns anos, foi exibida uma mostra de um escultor bom, criativo, argentino, que agora está morto. Era arte de protesto, e eu recordo um Cristo crucificado em um bombardeiro que caía. Era uma crítica ao cristianismo aliado com o imperialismo, que bombardeia.

Então, primeiro, eu não sabia; segundo, eu o qualificaria como arte de protesto, que, em alguns casos, pode ser ofensivo. Em alguns casos. E terceiro, este caso concreto: o padre Espinal foi morto no ano de 1980. Era um tempo em que a teologia da libertação tinha muitos ramos. Um desses ramos propunha a análise marxista da realidade. O padre Espinal pertencia a isso. Eu sabia disso, sim, porque, nesses anos, eu era reitor na faculdade de teologia e se falava muito disso, os diversos ramos e os representantes.

No mesmo ano, o geral da Companhia de Jesus [Pe. Pedro Arrupe] mandou uma carta para toda a Companhia sobre a análise marxista da realidade na teologia. Um pouco freando isso e dizendo: isso não está bem, são coisas diferentes, não é justo, não está certo. E, quatro anos depois, em 1984, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou o primeiro documento, pequeninho, uma primeira declaração sobre a teologia da libertação que critica isso. Depois, veio o segundo, que abriu as perspectivas mais cristãs (estou simplificando, hein). Ou seja, façamos a hermenêutica naquela época.

Espinal era um entusiasta dessa análise da realidade marxista e também da teologia usando o marxismo. Daí veio essa obra. As poesias de Espinal também era desse gênero de protesto, mas era a sua vida, era o seu pensamento, era um homem especial, com tanta genialidade humana e que lutava. Ele tinha boa fé. Fazendo uma hermenêutica desse tipo, eu entendo essa obra. Para mim, não foi uma ofensa, mas eu tive que fazer essa hermenêutica, e digo isso a vocês para que não haja opiniões equivocadas.

Onde ficou a cruz?

Eu a trago comigo. O presidente Morales quis me dar duas condecorações, a mais importante da Bolívia e a outra é a ordem do padre Espinal, uma nova ordem. Jamais aceitei uma honorificência, não sei, não me sinto bem. Mas ele fez isso com tanto vontade, com boa vontade e com o prazer de me dar um prazer, e eu pensei que isso vem do povo da Bolívia e rezei para saber o que fazer com isso. Se eu as levo ao Vaticano, vão parar no Museu, vão acabar aí, e ninguém jamais vai vê-las. Então, pensei em deixá-las à Nossa Senhora de Copacabana, a mãe da Bolívia, que vão para o santuário, ficarão no santuário. Ao contrário, o Cristo, eu trago comigo.

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Publicado por em 14 de julho de 2015 em Notícias e política, POLÍTICA

 

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