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ZAPATISTAS: COMUNISTAS, SOCIALISTAS OU ANARQUISTAS?

22 jul

images (2)     Movimento Zapatista inspirou-se na luta de Emiliano Zapata contra o regime autocrático de Porfirio Díaz que encadeou a Revolução            Mexicana em 1910, durando até 1920. Os zapatistas tiveram mais visibilidade para o grande público a partir de 1 de janeiro de 1994            quando se mostraram para além das montanhas de Chiapas com capuzes pretos e armas nas mãos dizendo Ya Basta! (Já Basta!)            contra o NAFTA (acordo de livre comércio entre México, Estados Unidos e Canadá) que foi criado na mesma data.

Diria que, embora o próprio Subcomandante Marcos (No dia 9 de fevereiro em 1995, o governo mexicano declarou publicamente que conhecia a identidade do Subcomandante Marcos, identificando-o como Rafael Sebastián Guillén Vicente (Tampico, Tamaulipas México, nascido em 19 de junho de 1957), ex-aluno da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e professor da Universidade Autónoma Metropolitana (UAM), em Cidade do México) diga que não querem depor o Governo e que suas armas são para defesa, a EZLN nasce para uma revolução dentro da revolução, considerando-se que é um grupo armado, organizado previamente, com práticas militares, palavras de ordem e hierarquia, querem a total ruptura com a ordem política, econômica e social, e que o Governo que negam desde o nascimento está nas mãos do mesmo partido desde a vitória revolução da mexicana.

O movimento defende uma gestão autônoma e democrática do território, a participação direta da população, a partilha da terra e da colheita.

A decepção dos Zapatistas pode ser sintetizada em um pequeno trecho de Bakunin:

“… Assim, nenhum Estado, por mais democráticas que sejam as suas formas, mesmo a república política mais vermelha, popular apenas no sentido desta mentira conhecida sob o nome de representação do povo, está em condições de dar a este o que ele precisa, isto é, a livre organização de seus próprios interesses, de baixo para cima, sem nenhuma ingerência, tutela ou coerção de cima, porque todo Estado, mesmo o mais republicano e mais democrático, mesmo pseudopopular como o Estado imaginado pelo Sr. Marx, não é outra coisa, em sua essência, senão o governo das massas de cima para baixo, com uma minoria intelectual, e por isto mesmo privilegiada, dizendo compreender melhor os verdadeiros interesses do povo, mais do que o próprio povo. […] […] Porque o Estado é precisamente sinônimo de coerção, domínio pela força, camuflada, se possível, e, se necessário, brutal e nua. […]”

download            A Revolução mexicana garantira aos povos, em sua Constituição, art. 27, que a terra seria comunal e que as riquezas dela extraídas seriam utilizadas em prol deste próprio povo. Como nas palavras de Bakunin, os “intelectuais” do Poder entenderam, a revelia da opinião popular, que tal artigo era inconveniente e prejudicava aos interesses do Estado, sendo modificado, submetendo a grande parte da população a uma situação de exploração e penúria.

No que pese o sub Marcos ser influenciado por Marx e Gramsci, o que pregam os Zapatistas, e colocam em prática nas condições que vivem, é a total abolição do Estado, sendo todas as decisões, das mais simples às mais complexas, tomadas em um consenso entre todos os interessados, existindo apenas um conselho, por eles mesmos escolhidos, para a orientação e desenvolvimento das questões acertadas.

Ainda sob a ótica de Bakunin, a negação da EZLN com relação às grandes corporações, OMC, NAFT e assemelhados, e o modelo que desejam os Zapatistas, pode ser claramente percebido em sua organização econômica onde tudo que é arrecadado é investido de forma consensual na própria comunidade.

Muito interessante é observar que o sub Marcos, possivelmente o grande mentor intelectual desta resistência, não tem face e nunca divulgou seu nome, sempre se colocando hierarquicamente abaixo  de um comandante ou conselho de comandantes, o que o afasta do conceito de “revolucionário doutrinário”, que, segundo Bakunin, o “objetivo é derrubar os poderes e regimes existentes para fundar, sobre as ruínas destes, sua própria ditadura, nunca foram e jamais serão inimigos, mas ao contrário, sempre serão os defensores mais ardentes do Estado.

Quando os Zapatistas se posicionam que todas as decisões devem ser tomadas por todos, excluem aí as classes sócias, mas sem formar um estado de proletariado, uma vez que a formação de tal estado criaria uma classe dominante a qual sempre haveria outra subjugada.

images (1)           Pode-se supor que os Zapatistas são em essência anarquistas e não socialistas ou comunistas, quando contrapomos ao marxismo no que tange aos campesinos de origem ou não indígena, onde surge a EZLN, vez que “a “plebe do campo” não goza da simpatia dos marxistas e que, situada no mais baixo grau da civilização, será dirigida, talvez, pelo proletariado das cidades e das fábricas”.

Querem os zapatistas a autogestão, a terra comunal sem cercas ou fronteiras onde possam tomar suas próprias decisões ouvido todo o grupo. Querem que as riquezas por eles produzidas sejam a eles dirigidas em forma de melhoria de qualidade de vida e dignidade humana.

Busca a EZLN a emancipação plena, e esta somente pode ser dar com a total supressão do Estado e da sociedade de classes. Desejam a total ruptura com a ordem vigente e, esta  somente se consegue através de uma revolução, considerando a força do capital das grandes corporações que tremem ao perceber que em algum lugar do mundo se caminha para isto, a força  econômica dos lobistas políticos e a força militar dos Estados que trabalham para proteger os interesses do capital financeiro.

Os povos oprimidos são povos sem voz, esmagados pela mídia manipuladora, que os transforma em monstros contra democracia e a república, enquanto parlamentares elaboram leis que lhes retiram direitos e os criminalizam. Desta forma não há perspectivas de uma reforma política pacífica, o único caminho é a revolução social.

A estratégia de “empurrar” os zapatistas para as montanhas é uma forma de não somente os afastar da opinião pública que com eles simpatiza a cada dia mais, se transformando em uma ameaça política, mas como, também, de lhes tirar as “raízes” e enfraquecer sua cultura, lhes tirando completamente a identidade. É a catequese dos contrários, ao invés de fazê-los “comungar na religião dos dominadores”, os fazem perder contato com a sua própria, é um processo de total alienação para abater-lhes os ânimos.

O amor dos zapatistas não está voltado a abstração que chamamos de pátria, está voltado às suas origens e cultura, à terra em que nasceram seus ancestrais e sua história, e talvez isto seja um dos pontos assustadores para os patriotas defensores do estado opressor, que necessita expulsá-los e massacra-los. A noção jurídica de pátria nos remete a fronteiras, estas nos remetem a limites, que nos remetem a demarcação que por sua vez nos trazem as cercas e o conceito de propriedade privada individual que negam os revolucionários dentre suas reivindicações.

Dentre os zapatistas, uma minoria cristã ora esperando ajuda divina e da Igreja, esquecendo-se, ou não tendo conhecimento que o “Estado é o irmão mais novo da Igreja”, e que a dominou, vez que as Igrejas já não têm mais armas e são economicamente dependentes da tolerância do Estado.

No que tange a fé religiosa, temos mais um ponto que afasta zapatistas dos comunistas e socialistas, enquanto comunistas querem impor a ciência frente à fé, os socialistas propagam a ciência em detrimento da fé, para que os grupos humanos se organizem segundo seus “interesses reais”, sem nenhum plano traçado de antemão e imposto por “inteligências superiores”, os zapatistas preservam a fé indígena e cristã. É certo que grandes nomes do anarquismo se insurgem contra a fé, mas temos que considerar a existência do anarquismo cristão, ou cristianismo libertário, dentre os quais, embora negasse, encontramos Leo Tolstoy, teoria defendida por  Jacques Ellul.

140506-Zapatistas3           A população zapatista originária – temos os que se julgam zapatistas por ideologia, e assim são aceitos por estes primeiros – foi abandonada pela Mídia, pelo Estado e pela Igreja, não lhes restando, se não outra opção, a que lutar pelo fim das instituições e pela autogestão.

A EZLN, Exército Zapatista de Libertação Nacional, prega a liberdade plena em contradição a “liberdade formal”, outorgada, medida e regulamentada pelo Estado”, querem o mundo novo, fundado na humanidade solidária, que somente será possível sobre as ruínas das Igrejas e Estados.

Este será a grande contradição interna dos zapatistas, como desejar a ruína da Igreja entre um povo de intensa fé? Bakunin nos coloca que a igreja tem a missão de perverter as jovens gerações, as mulheres acima de tudo, que ela através de seus dogmas, mentiras, estupidez e sua igonomínia tende a matar o pensamento lógico e a ciência. Que ela afeta a noção de dignidade do homem, perverte a noção de direitos e justiça, corrompe a liberdade. Acusa a Igreja de perpetuar o reinado das trevas, da ignorância, da miséria e do crime. Como solução para o progresso Bakunin aponta a necessidade de terminar com a Igreja,

Sobre a consideração supra, devemos nos ater a dois detalhes, o primeiro o ano de 1814, a época em que nasceu e viveu Bakunin e o que representava a Igreja no contexto histórico da época. O outro a considerar é a existência de um anarquismo cristão libertário, que indica um respeito a fé.

O Contexto histórico de Bakunin nos remete a uma Igreja que era algo aterrorizante, que comandava governantes e o povo, impunha medos como forma de controle das massas, uma Igreja que até mesmo alguns monges, padres e bispos julgavam ter que acabar. Não entendo que Bakunin se insurge contra a religiosidade, a fé, vislumbro em suas palavras a necessidade de destruir a instituição Igreja, vez que ele não aceitava qualquer direcionamento que viesse de cima para baixo. Temos que ter o cuidado, tantos anos depois, de fazer tal leitura separando a Instituição Igreja e Religião, da religiosidade, da fé inerente a todas as civilizações desde os primórdios.

Algumas conclusões que abstraio é: que trata-se sim de uma revolução; é utópico nos tempos de hoje acreditar em avanços da EZLN sem o confronto armado; que já vivem hoje em uma organização anarquista e que esta encaminha-se para uma fusão que resultaria em um anarco socialismo cristão libertário, se não for delírio pensar em tão discrepante fusão.

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Publicado por em 22 de julho de 2014 em Notícias e política

 

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