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DO CLARÍN.COM: Secretário de Segurança do Rio: “Não posso garantir quando o Exército não será mais chamado”

28 mar

Marcia Carmo

José Mariano Beltrame disse, nesta quinta, 27 de março, em entrevista ao Clarín em Português, em Buenos Aires, que adiar o pedido de ajuda ao Exército pode ter contribuído para dificultar o combate ao tráfico de drogas no Rio. Ele afirmou, no entanto, que o Rio já encontrou “seu rumo” na área de segurança. E garantiu que o Brasil será seguro na Copa do Mundo.

Beltrame está em Buenos Aires para realizar palestras, nesta sexta, 28 de março, na Universidade Católica de Buenos Aires (UCA) no momento em que a segurança pública passou a ser prioridade entre os argentinos e que políticos locais apontam as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) como exemplo. Beltrame tem sido citado como modelo no combate ao crime por prefeitos da província de Buenos Aires. Na semana passada, foi a vez do prefeito Joaquín de la Torre falar sobre Beltrame na TV argentina. O mesmo já fizeram governadores.

A entrevista foi realizada no hotel onde o secretário está hospedado em Buenos Aires e minutos depois de ele ter falado com sua assessoria no Rio de Janeiro sobre a prisão de um líder do tráfico de drogas do Complexo da Maré, Marcelo P., que estava foragido.

Calça jeans, camisa esporte e sem segurança por perto, o delegado da Polícia Federal e secretário de Segurança Pública do Rio falou sobre o Rio, o Brasil e a Copa do Mundo e indicou como outros estados ou países devem encarar o problema inicial da segurança.

A seguir a entrevista: 

 O Brasil vai estar seguro na Copa do Mundo?

Não tenha dúvida. Já temos um plano todo feito, toda uma programação organizada. O que se está fazendo no Brasil em termos de combate ao crime, e em relação à UPP é outra atividade que não tem nada com a questão turística. (Existe um plano) para o caso do Maracanã e onde as delegações vão estar instaladas e principalmente onde o turistas vão estar concentrados.
– O Exército foi novamente chamado para participar de uma operação no Rio, no complexo da Maré. Vai chegar o momento em que o Exército não será mais chamado?

Eu não posso dar essa garantia, sinceramente, porque o Rio de Janeiro tem ainda áreas que são muito difíceis e a gente sempre pede esse auxilio e eu particularmente não tenho pudor nenhum de pedir esse apoio. Acho até que as pessoas tinham esse pudor de pedir apoio federal e acho que isso pode ter contribuído muito para essa situação hoje do Rio de janeiro. Então, se eles podem vir, adiantar esse processo para nós, ocupar uma área onde 140 mil pessoas moram enquanto vamos preparando nossos policiais para assumir aquele lugar. Então por que não? Não há que ter medo disso.

– E a Copa?

Meu compromisso não é com a Copa do Mundo não é com nada disso. Meu compromisso é com a população carioca. Até porque a Copa vem e vai embora e a população fica.

– Qual será o tema da sua palestra aqui em Buenos Aires?

Eu vou falar um pouco sobre a experiência do Rio de Janeiro e vou dar uma visão do que entendo dos temas que obrigatoriamente devem ser abordados por toda a América Latina para que a gente consiga dar uma resposta efetiva para a segurança pública.

– Uma ação conjunta.

O que sei é que hoje tenho a impressão de que estamos sempre agindo com a aplicação de analgésicos e o problema estrutural, o problema em si a gente não resolve. Não se trata somente das questões sociais, de cidadania, porque isso sem dúvida tem um peso enorme mas isso não nos diz respeito (como polícia).

São questões relativas às mudanças na ordem penal, pelo menos no Brasil, a questão da fronteira, dos menores de idade. No Brasil, a questão do crack, a questão dos presídios que não deixam de ser uma grande assembleia de bandidos. Estas questões precisam ser encaradas pela sociedade.

A sociedade precisa escolher que sistema prisional ela quer. Que sistema legal ela quer. E eu me sinto tranquilo de dizer isso porque nós, lá no Rio de Janeiro, temos resultados.  Nós temos resultados e estamos vendo quando as coisas não funcionam.

Por exemplo, nessa madrugada prenderam o chefe do tráfico (de drogas) da Maré (Marcelo Santos das Dores, o ‘Menor P’, apontado como chefe do tráfico em onze favelas do Rio)….

– Onde o Exército vai entrar…

Exatamente onde o Exército vai entrar. (Beltrame não quis dizer quando o Exercito entrará no local e indicou que a iniciativa está desvinculada da Copa do Mundo). Ele foi preso tendo uma infinidade de mandados de prisão. Um homem que saiu no regime semiaberto em 2007 e que simplesmente não voltou mais para a cadeia.

JUSTIÇA

– Ou seja que é um problema judicial?

– Sim, um problema judicial. E tenho a impressão que ninguém quer mexer nisso. A imprensa não mexe, os políticos não mexem, as pessoas não mexem, mas está aí. A polícia do Rio de Janeiro gastando uma energia imensa em cima de um trabalho (para capturar) uma pessoa que já era para estar presa e há muito tempo.

– Por que o senhor acha que isso acontece? Corrupção? Por quê que isso acontece?

Eu acho que efetivamente a sociedade precisa estabelecer de maneira clara que tipo de segurança pública ela quer. Que segurança pública ela quer para Buenos Aires, que segurança pública ela quer para o Rio de Janeiro para daqui a vinte anos. Porque o que eu percebo é que estamos dando grandes anestesias nos problemas. Mas tem toda a questão da cidadania que não entra e tem essas questões estruturais. Nós temos reincidência muito grande nos presídios. Isso significa que os presídios não recuperam (os que ali estão). Que o menor de idade hoje é um objeto usado pelo crime. Então, tem muita coisa que acontece e que a polícia poderia estar fora disso.

UPP

– O senhor acha que a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) é então só uma parte desse combate?

Exatamente. A UPP abriu uma janela de oportunidades para que as coisas aconteçam. Seja no âmbito da cidadania, seja no âmbito de obras públicas, seja no âmbito da reorganização urbana daquele local. Ninguém mexe com o controle vertical do aumento das favelas. Ninguém mexe com isso. E então é isso.

– O que o senhor diz é que a polícia não pode resolver a questão da segurança pública sozinha.

É assim, mais polícia, mais polícia e mais polícia. Porém, mais polícia, mais polícia não resolve o problema. As pessoas, na verdade, querem um policial pra chamar de seu.

– E isso é impossível?

Deve ser um conjunto. Mudar estruturas que permitam uma vida melhor para a juventude. No Rio de Janeiro, por exemplo, existem lugares sem esgoto, sem água e onde a luz é o que chamamos de ‘gato’ (clandestina). Tudo é tão clandestino que a pessoa acaba vivendo naquele lugar e se acostuma com o clandestino. E obviamente o crime, o tráfico de drogas vão para onde? Para onde o Estado não está.

ARGENTINA 

– Aqui na Argentina a segurança pública, junto com a inflação, passou a ser a principal preocupação dos argentinos. E vários políticos, governadores e prefeitos citam a UPP como exemplo especialmente para áreas mais carentes e com problemas na área de segurança como na Grande Buenos Aires. O senhor sugere a UPP como saída também para estes lugares?

Eu acho que a UPP é uma solução ‘made in Rio de Janeiro’. É uma solução para o Rio de Janeiro. Para quem tem uma configuração geográfica, como a que temos. Para quem tem uma existência de facções criminosas que ideologicamente se odeiam. Para quem já tem implantado nessas áreas, armamento, capacidade belicista importante. Eu acho que pode se tirar algumas coisas da UPP para se aplicar aqui e quem sabe alguma coisa daqui para que seja aplicada lá. Mas eu acho que o que se fez lá é uma coisa muito para o Rio de Janeiro porque no Rio existem requisitos que não se encontram no mundo e não só a criminalidade.

– A topografia

Exatamente, a topografia, um abandono total dos governos durante trinta, quarenta anos. O que fez com que o tráfico adquirisse uma cobertura muito grande e trouxesse armas de vários tipos e de vários lugares. Coisas que por onde eu falo e que por maior que seja o problema, ainda está se iniciando e é o momento para que alguns estados brasileiros e alguns países devem agir. E essas ações precisam de plano, logística. E os governos devem ter uma opção clara pela segurança pública. E eu acho que nenhum político sobe num palanque eleitoral sem falar em segurança em primeiro lugar.

– Este ano um suposto traficante colombiano foi morto por outro traficante colombiano, como disse a justiça, no parque de Palermo, em plena luz do dia, aqui em Buenos Aires. Surgiu uma polêmica sobre o papel da Argentina, se ela já é ou não produtora e não só país de trânsito da droga. (o ministro da Defesa, Agustín Rossi, disse que já era produtora). Então, que conselhos o senhor daria a um país que, em tese, está no início do problema com o tráfico de drogas?

Eu acho que nós não somos produtores de drogas. Essa droga vem de outros lugares. Nós não somos produtores de armas. As armas ilegais são americanas. E a sua munição também. Então, nós temos um problema.

 Fronteiras

Você vai à Europa, em qualquer lugar, e existe um controle muito rígido do controle migratório. Fronteiras, sim. Agora imagine isso no Brasil. O Brasil tem mais de nove mil quilômetros de fronteira marítima e 16 mil quilômetros de fronteira seca. E se os Estados Unidos que são uma potência têm dificuldades de controlar três mil quilômetros de fronteira com o México, imagina a gente que tem muito menos condições, condições financeiras. Agora prioritariamente os governos têm que deixar muito claro à sociedade que segurança pública é prioridade. Porque sem segurança pública não acontece nada. Os investimentos vão embora. As escolas perdem alunos.

SUGESTÃO

– E o que o senhor sugere para os outros países da América Latina, especialmente a Argentina?

O que eu sugiro para os outros países é que o problema seja de todos. Que as pessoas digam assim, o que eu posso fazer, como posso ajudar? Você pode ajudar pedindo mudanças legislativas. Pode ajudar fazendo um esforço para dizer que a política pública dentro daqueles lugares não está chegando. De que está havendo a retirada das crianças das escolas porque estão com medo do crime. Eu acho que o Rio de janeiro vai perder uma geração (até que as políticas de segurança sejam totalmente implementadas e outras ações conjuntas). Não tenha dúvida.

Não vamos consertar o descaso de quarenta anos em dez anos. Mas hoje o Rio de Janeiro tem um rumo, ele sabe onde quer chegar. A sociedade tem que ter resultados concretos, objetivos transparentes e mensuráveis para que ela possa ver onde quer chegar. O que se quer da segurança? Onde se pode chegar com a segurança? É preciso um plano…

– Longo prazo

E que as pessoas possam medir esse plano, que o tenham claro.

– O senhor passou a ser citado por prefeitos de Buenos Aires que dizem que o respeitam pelo seu trabalho no Rio …

Meu respeito é sempre com a população. Quando me dizem isso sinto responsabilidade muito grande porque tenho medo de desiludir essas pessoas. Não vou desiludir essas pessoas. E vou continuar fazendo de tudo para continuar sendo respeitado. Mas que os efeitos venham realmente através de resultados.

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