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DO CLARÍN.COM: Com limite de dólares, Argentina deverá pagar em pesos por importações do Brasil

24 mar

Marcia Carmo

O pagamento em pesos começaria pelas importações do setor automotivo do Brasil e poderá ser a saída para que a Argentina mantenha seus pagamentos e preserve seus dólares do Banco Central, segundo contaram negociadores dos dois governos ao Clarín em Português. O mecanismo envolveria os bancos privados no Brasil em entendimento com as empresas que exportam para o mercado vizinho.

A alternativa está sendo analisada pelos dois países após a visita do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mauro Borges, à Buenos Aires, na sexta-feira, 14 de março, ao país vizinho.

As montadoras devem conseguir que bancos privados no Brasil aceitem a moeda argentina e a Argentina deverá oferecer garantias e previsibilidade. Por exemplo, que o peso não sofrerá desvalorizações no longo prazo. A delicada matemática foi estudada pelas autoridades brasileiras e pelo setor automotivo no Brasil e foi transformada em um ‘borrador’ (rascunho) que foi enviado ao ministro da Economia, Axel Kicillof, nesta semana.

O próximo passo deverá ser uma reunião entre técnicos para que a ideia, com o esperado aval da Argentina, possa ser analisada para ser implementada.

Nesta sexta, dia 21 de março, Borges disse, em Brasília, que os dois países devem assinar no dia 27 de março, no Brasil, um memorando de entendimento sobre linhas de créditos envolvendo bancos privados e para manter o fluxo de comércio. Ele não deu, porém, maiores detalhes.

De acordo com ele, a linha será operada exclusivamente por bancos comerciais para “dar conforto e liquidez” às trocas comerciais entre os dois países. Borges não revelou valores.

Reservas 

A Argentina possui hoje cerca da metade das reservas do Banco Central que possuía em 2011. Hoje, elas estão em torno de US$ 27 bilhões e em 2011 eram US$ 52 bilhões.

Cuida-las passou a ser questão primordial para a equipe econômica argentina. Em dezembro do ano passado, Kicillof disse ao então ministro Fernando Pimentel, antecessor de Borges, que era preciso encontrar uma alternativa para o pagamento pelo comércio com o Brasil.

Na época, Borges, que era da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), já estava informado sobre a preocupação argentina e dos exportadores brasileiros. Após a visita de Pimentel à Buenos Aires, Kicillof reuniu-se, este ano, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em São Paulo, e as conversas também envolveram a mesma preocupação – como manter o fluxo de comércio bilateral sem afetar as reservas argentinas e garantindo o pagamento aos exportadores brasileiros.

A Argentina é o principal cliente internacional do setor industrial brasileiro – principalmente no ramo de automóveis.

O setor automotivo representa cerca de 55% do comércio bilateral que no ano passado registrou US$ 36 bilhões – perdendo apenas para o recorde de US$ 39  bilhões em 2011. No entanto, nos dois primeiros meses deste ano, ocorreu uma queda brusca no comércio bilateral.

Em janeiro, o comércio bilateral recuou cerca de 18% e em fevereiro quase 17%.

Trigo 

A queda no comércio bilateral este ano foi influenciada por um conjunto de fatores que incluem menor exportação de trigo argentino para o Brasil e as chamadas DJAs (Declarações Juramentadas Antecipadas de Importação – barreiras comerciais que afetam um percentual menor que o que representa o setor automotivo mas que geram antipatias não só empresarial mas política no lado brasileiro e da qual a Argentina não pretende abrir mão.

Na visita à capital argentina, na sexta-feira, 21 de março, Borges disse aos jornalistas à saída da reunião com as autoridades argentinas que o objetivo é “manter o fluxo do comércio bilateral”. Naquele momento, ele não especificou o que está sendo estudado porque as discussões eram apenas embrionárias.

A reunião, no Ministério da Economia, contou com a participação de Kicillof, do chefe de Gabinete da Presidência, Jorge Capitanich, do presidente do Banco Central, Juan Carlos Fábrega, da ministra da Indústria, Debora Giorgi, do secretário de Comércio Interior, Augusto Costa, que entrou quase no final do encontro no quinto andar do edifício. Do lado brasileiro estiveram Borges e o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia.

Outros setores 

As alternativas de pagamentos, que não contariam com dólares, interessam, hoje, aos dois lados. Se a sugestão brasileira for aceita pelas autoridades argentinas, ela começaria a ser aplicada ao setor automotivo para depois ser ampliada para diferentes setores desta relação  comercial como linha branca, por exemplo.

Em um segundo plano e ainda em estágio embrionário e ainda visto difícil de sair do papel, os argentinos defendem – há tempos – um swap de moedas, mas do lado brasileiro veem a operação como pouco provável no momento devido, principalmente, a instabilidade do peso e a dificuldade com que bancos privados o aceitem.

No entanto, todas as alternativas são estudadas com atenção já que, além de a Argentina ser o principal comprador dos produtos industriais brasileiros,  o Brasil possui cerca de US$ 15 bilhões de investimentos no país vizinho. São em torno de 400 empresas brasileiras que geram 40 mil empregos diretos para os argentinos.

Atualmente, os dois países já contam com o Sistema de Pagamentos em Moedas Locais (SML), que surgiu em 2008 e vem crescendo, mas ainda representa percentual tímido diante do volume de comércio bilateral.

Os dois países fazem parte ainda do CCR-ALADI (Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos da Associação Latino-americana de Integração)  – que envolve bancos centrais e não bancos privados e com um mecanismo de compensação no comércio.

O fato é que a última coisa que os dois lados querem é crise – mas sim atuar para manter o ritmo desta relação bilateral. E os dois lados estão de olho no mesmo ponto central – o nível das reservas do BC da Argentina. 

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Publicado por em 24 de março de 2014 em Notícias e política

 

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