RSS

DEFICIÊNCIA FÍSICA E PARALISIA CEREBRAL, PRECONCEITOS E CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS

09 mar

PEÇO AOS MEUS AMIGOS QUE PERCAM UM POUCO DE SEU TEMPO E LEIAM O QUE ESCREVO ABAIXO COM FUNDAMENTO EM MINHA EXPERIÊNCIA PESSOAL

deficientes Caros amigos , de hoje em diante, mais em diante que hoje, passarei a fazer algumas ponderações sobre paralisias e seus tratamentos, sobretudo sobre equitação e Equoterapia, mas antes quero falar um pouco sobre ser deficiente físico em nossa sociedade.

Iniciarei falando ou pouquinho sobre deficiência física, contando algumas experiências pessoais.

Ser deficiente no Brasil é algo complicado, já não basta o quão complicada é nossa cabeça.

Começamos com a dificuldade de encontrarmos um tratamento adequado as nossas necessidades, num mesmo lugar então nem pensar, quando encontramos, não é gratuito e é, em via de regra caríssimo. Planos de saúde que não querem cobrir os tratamentos decorrentes da deficiência, ou quando obrigados por força de Lei criam todo tipo de dificuldade.

Dei muita sorte com profissionais que encontrei em minha jornada, mas conheci, vi, estórias terríveis…

Isto, fora a arrogância e prepotência de alguns profissionais que acham que sabem tudo sobre todas as deficiências e os deficientes. Temos ainda aqueles que nunca conviveram com deficientes, seja no âmbito familiar ou profissional, que são meros teóricos de gabinete e que julgam poder ditar regras e tratamentos a partir de apontamentos feito na vida acadêmica.

Aqui fora, fora do meio hospitalar não é diferente.

charge7 No meio profissional tive experiências interessantes de portas se fechando, ouvindo frases do tipo “tem outro daqueles aí fora” e ouvindo a resposta pela porta entreaberta “se livre dele”, de ser observado todo o tempo como se de minha condição física dependesse meu intelecto e competência. Até no teatro tive estes problemas como produtor. Quando ia direto procurar um possível patrocinador  a primeira coisa que faziam era uma ostensiva olhada de cima a abaixo com certo ar de desprezo, foi assim com relação a dar palestras e outras coisas mais, que me levaram a antes fazer vários contatos telefônicos com as pessoas, tentar marcar em lugar que eu pudesse chegar antes e já estar sentado… Mas venci, não sem sequelas, mas venci.

Aí vamos para o seio de nossa hipócrita sociedade sem preconceitos e seus convívios sociais. Agora fica bom de vez…

Que fique claro que nem tudo é regra, mas lembrando que é a exceção quem confirma a existência da regra. Aqui estou apenas demonstrando alguns dos muitos inconvenientes para adentrar em outras postagens nas paralisias cerebrais.

Vamos a nossa santa e perfeita sociedade: Vida amorosa, voltando a lembrar que não é regra e que apenas estou expondo o lado da regra geral em minha experiência de vida, sobre tudo que expus e ainda vou expor. Existem pessoas sem preconceitos, mas a regra é o preconceito, não somente a partir da padronização física midiática, o tipo ideal, mas sob todos os outros aspectos possíveis e imaginários.

Ainda muito jovem comecei a namorar uma garota que terminou comigo de tanta gozação das amigas e amigos, que dentre outras diziam a ela que estava com meio homem. Tive outra experiência em que a família pressionava falando das dificuldades que ela teria, que talvez eu não pudesse ter filhos (para quem não sabe tenho 3), que eu poderia viver tendo que estar em hospitais, que nem dançar eu poderia.

Tem uma interessante. Estava eu sentado em uma Boite, muletas atrás da cadeira para não derrubar ninguém na penumbra, poderiam tropeçar (já observaram que em um país que tem 25% de deficientes não há lugar para se colocar bengalas?), entra um grupo de jovens e sentam bem ao lado, uma delas dá uma olhada e discreta e estrategicamente troca de lugar com a amiga para ficar ao meu lado, conversamos, começamos a trocar carinhos, um beijo e… que droga, cerveja igual a banheiro, pego as muletas e me levanto, vou ao banheiro e quando volto, surpresa, haviam trocado de mesa… Mas sobrevivia tudo isso e sempre fui bem resolvido neste lado também, sorte que a maioria não dá.

images (1) E no dia a dia. Este é no mínimo curioso. As pessoas, a mim parece, fazerem questão de serem inconvenientes. Entro no ônibus, cansado de um dia de trabalho, meu desgaste físico é bem maior que de uma pessoa dentro dos padrões de normalidade, querendo estudar e me sento na primeira cadeirinha do ônibus, já que um gentil senhor se levantou para tal. Pego meu livro e sinto um toque no ombro, viro a cabeça um pouco para atrás e percebo que alguém, nem sabia se homem ou mulher, me entregava um papel, balancei a cabeça que não e disse um tímido obrigado, mesmo sem saber do que se tratava. Usava eu um cordão com uma cruz, quando percebo um diálogo alto e em tom agressivo atrás de mim que dizia, dentre outras: “quero ajudar, Jesus o curaria, mas prefere ser aleijado”, “não é atoa que é assim”, etc. Fecho o livro, o rosto esquenta, penso “é comigo”, vou ouvindo calado até que já com a pressão a mil ouço a frase, “eu pego na mão de Deus, ele se apaga a imagens (alusão ao crucifixo). Explodi, virei para atrás e soltei um monte de impropérios, finalizando dizendo em que ela deveria segurar e sugerindo que o fizesse no próprio satanás…

Na praia é ótimo, cada vez que se levanta e anda tem uma plateia de fazer inveja a qualquer ator de teatro, que comentam e apontam. Teve um dia que cansado de ser observado como animal em uma jaula,  resolvi caminhar pela areia. Imaginem vocês, sem mexer os dois pés, com duas muletas afundando na areia, o que é andar na praia, mas somos guerreiros e não desistimos nunca, então vamos caminhar. Estou caminhando e começo a ouvir, ao longe, um “oi”, “psiu!”, você”, “espera”, e na medida que caminhava, em pouco tempo muito próximo, quando sinto uma mão no meu ombro e uma voz de senhora que diz estar me chamando, paro, olho para atrás com um sorriso e ela vem com a pergunta: “o que aconteceu com você?”, porra, a velha quase enfartou de correr na areia para me encher o saco. Respondi com um sorriso (é claro que com um termo que não colocarei aqui): “é que tenho aquilo muito grande e perco o equilíbrio quando ando…”. Fui xingado, chamado de grosso e sem educação…

Além destas tem muitas outras, tem um que é o curioso insistente que te pergunta o que houve, você responde, para simplificar, que foi um acidente e ele quer todos os detalhes e fica insistindo nas perguntas. Tem o bonzinho, que deus me proteja deles. Ao te ver subir uma escada ou algo que pareça ser difícil ele quer ajudar, pergunta se você precisa de ajuda, você diz que não, ele não se conforma e agarra seu braço, com uma força que parece que vai arrancar, te tirando todo o equilíbrio, te puxando e empurrando, é  quando nós entregamos nas mãos de Deus e vamos…

E as ofensas? Aleijado filho da puta, deus marcou para não perder de vista, até ouvi de uma em uma discussão de fim de relacionamento que “não tenho culpa de deixar de gostar de um aleijado escroto”.

Bom, as estórias são muitas e já me alonguei demais, já dá para ter ideia o que é ser deficiente em nossa sociedade. Na média não tenho queixas de minha vida e me considero um cara realizado, bem sucedido e bem resolvido. Complexos? Tenho, todos tem, deficientes ou não, sendo que no caso de deficientes, aqueles que dizem não ter são os mais complexados de todos, o importante é a forma que lidamos com nossos complexos.

Fiz tudo isto apenas com intuito de introduzir um tema, paralisias cerebrais, seus tipos, graus e rótulos incutidos em nossa sociedade. Falarei a respeito em outra oportunidade, não como profissional da área ou acadêmico, mas como ser humano que já vivenciou muita coisa e conviveu com muita gente com problemas dos mais diversos tipos.

Imagine se para quem é deficiente físico, uma coisa visível ao primeiro olhar, já é difícil, como é para aqueles que têm problemas que não são visíveis e que acabam sendo rotulados de diversas formas e excluídos do convívio social.

Por hoje é só, voltarei ao tema.

Anúncios
 
 

Tags: , , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: