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EL PAÍS – OPINIÃO: Melhor malandros que black-blocs?

04 mar

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/04/opinion/1393953612_575893.html

AUTOR JUAN ARIAS

O rio de milhões de brasileiros que neste carnaval celebraram os prazeres da vida e da sexualidade sem protestar contra nada acabaram fazendo esquecer os protestos de junho passado quando as imagens correram o mundo.

O que poderia acontecer agora, apagadas as luzes do carnaval mais famoso e sensual do mundo? Onde estavam nesse carnaval os black-blocs impertinentes que aproveitam quebrando os símbolos do capitalismo? Onde estavam os bandidos de ofício que regam o país de violência e o amedrontam? Onde estava a odiada polícia? E os políticos? Provavelmente, todos desfrutando do grande bacanal, que por uns dias anulava suas personalidades para fundir-se em um gozo coletivo.

O que acontecerá agora com a Copa, terminado o carnaval? E com as eleições presidenciais? Nem os melhores adivinhos seriam capazes de dar o prognóstico, mas algo é certo: os brasileiros, como já haviam apontado os antropólogos, seguramente seguem nutrindo mais simpatia pela festa, pelos malandros e operadores do jeitinho, duas grandes instituições tipicamente brasileiras, que pelos mascarados black-blocs.

Como já advertia Alberto Guerreiro Ramos o brasileiro “não faz revolução”, nem enfrenta o “superior hierárquico”, ainda que tão pouco aceite o “autoritarismo implícito”. Mas já que não pertence a sua idiossincrasia o enfrentamento de cara com o poder, busca um substituto: como não pode encará-lo, prefere sabotá-lo. É o que ele chama de “revolução silenciosa”.

E as duas instituições populares que delineiam a idiossincrasia brasileira melhor que os violentos black-blocs, são a malandragem e o jeitinho. Busca-se, por caminhos transversais, conseguir o que não pode conquistar com o enfrentamento direto. Talvez por ele, os brasileiros se sintam, afinal, mais à vontade nos carnavais que nas manifestações populares de protesto. Talvez por isso, a grande maioria dos cidadãos repudiar a ação protestante dos black-blocs e o Congresso quer até aplicar-lhes, com evidente exagero, as duras leis contra o terrorismo.

O feito da malandragem e do jeitinho seguem vivos na cultura popular até que a luta contra os corruptos não aparece nunca entre as prioridades da cidadania. Todos sentem-se, de algum modo, vítimas e protagonistas da pequena ou grande corrupção. Nenhuma obra melhor para entender esse modo de protestar brasileiro que a obra Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado, imortalizada no cinema por Sônia Braga, que pretende conciliar o desfrutar sensual e libertário da vida com a segurança da lei. Dona Flor consegue, no triângulo amoroso do amante malandro e do marido legal, satisfazer todos seus desejos.

No carnaval, como bem imortalizou em suas obras Roberto Da Matta, o brasileiro realiza seus sonhos sem necessidade de usar violência. A mulher pobre e anônima da favela se veste de rainha por um dia; o homem se disfarça de mulher; o jovem de policial, enquanto que o odiado policial se perde no meio do povo camuflado como uma pessoa normal. Cada um busca realizar seu sonho e exercer sua liberdade seu ser castigado.

Em um país apelidado como o de “leis”, que passam dos quatro milhões, como uma Constituição que tem mais artigos que as outras do mundo; em um país onde sempre reinou o autoritarismo, e a burocracia cobre tudo, os brasileiros se tornaram experts em burlar a lei para poder sobreviver. E o fazem por vias subterrâneas, sem enfrentar o legislador ou o poder. O fazem de seu modo ainda que seja roçando a ilegalidade.

Assim, os brasileiros acabam sendo paradoxalmente mais pragmáticos do que possa parecer. Nada mais realista, na verdade, que o jeitinho para conseguir o que a lei nunca daria para a maioria dos marginalizados do poder.

Como escreveu José Roberto de Toledo, também nas próximas eleições o voto dos brasileiros será mais pragmático que político. O eleitor brasileiro pensa, ao colocar seu voto na urna, mais que na ideologia, no que pode “ganhar ou perder pessoalmente”, votando a um ou outro candidato.

Daí os candidatos insistem às vezes mais em o que os cidadãos ‘perderiam’ se não os dão o voto, do que ‘ganhariam’ votando.

E as manifestações de protesto? Talvez me equivoque, mas tenho a impressão que os black-blocs, sem querer, as paralisaram. Me refiro às pacíficas. Mais ainda, penso que os brasileiros se sentiram aliviados com a desculpa da violência dos ‘vândalos’ para não ter que sair à rua.

Eles já fizeram saber, em sua maioria, que desejam que este país mude, que melhore, que se possa ir e vir mais a vontade, mas sem preocupar-se excessivamente com a ideologia. Tanto faz quem mude as coisas para melhor. Não são incendiários, são pragmáticos, inclusive os jovens. Por isso a maioria deprecia os ‘vândalos’ e acabarão votando em quem melhor os convença que vai mudar as coisas para melhor.

Se depois não o fazem, seguirão buscando caminhos transversais para melhor por sua conta a própria vida. Se é preciso tentar chegar ao poder, que seja, com a malandragem ou o jeitinho, é o que oferece a propaganda política sem cumprir.

E se o Brasil se modernizasse? E se amanhã voltasse a sair a rua exigindo que se cumpram as leis sem necessidade de ter que burla-las? Ah, então o Brasil seria outro, mas o de hoje é o que é, goste ou não.

O certo é que, a pesar de tudo, os brasileiros, sem desejos revolucionários, não aparentam menos felizes que tantos outros povos vizinhos. Com suas artes forjadas no antigo duelo entre senhores e escravos, conseguiram, com a força de sua criatividade, não poucos espaços de liberdade. E sem guerras.

Não é muito? Talvez, mas melhor não perguntar aos black-blocs, que eles nem parecem brasileiros. Melhor perguntar aos malandros eexperts do jeitinho, que conhecem como ninguém este país que segue apostando mais na festa que na revolução. Pelo menos na aberta e frontal. A subterrânea segue com suas incógnitas abertas. A “revolução silenciosa” de Guerreiro Ramos, talvez não tenha ainda se apagado e siga viva nas cinzas. E poderia ressurgir a qualquer momento.

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